segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Desligado

Desligado


Chegou em casa,
No quarto, pulsou pra destruir o guarda-roupas,
Um já tinha ido.

Não apanhou, não perdeu namorada, tem o que comer.
O que lhe estorva é o monte,
O monte de coisas que tem que fazer.

De tanto fazer não sabe mais o que faz,
Não percebe porque faz.
Só sabe que faz;
Sabe?

Viver pra fora é o viver bonito,
O viver que leva à fama, ao elogio,
Ao aplauso daqueles que mesmo sem saber seu nome,
Dão sentido à sua vida.


Vive desligado do mundo,
Triste e envergonhado por não conseguir ser o que quer,
Por não ter capacidade para tentar mudar o que acha errado;
Humilhado pela consciência crítica que desenvolveu na faculdade
E que agora só lhe serve pra ajudar a perceber o que mudará no mercado;
Passaporte para sua promoção na empresa!

Foi promovido!
Promovido à negador da vida!
Nega o tempo, nega o outro, nega a si mesmo.
Só não nega a necessidade de ser um negador da realidade.
Porque é essa negação que o faz achar que vive ligado ao mundo,
Do qual já se desligou desde sua gestação,
Quando seu pai e sua mãe nem sabiam,
Mas já não eram eles próprios,
Eram o ato inspirado pelas cenas de amor que tanto lhes comoviam nas sessões de matinê.

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